Autor: Ronaldo Guimarães
Obra: Parkinson
 

 

 Parkinson   

        

                                                                          
          Meu nome é Dr. Augusto Frota. Tenho oitenta e um anos, viúvo de dona Constância, três filhos bem colocados, seis netos ausentes, uma enfermeira presente, quatro livros publicados, um poema inacabado, vários terços bem rezados, uma memória brilhante e um mal constante: Parkinson.

            Já tive muita saudade da Constância, hoje não. Aliás, meu Deus, como adoro falar aliás... Quando eu era o melhor advogado dessa cidade, na hora que eu falava o aliás, todos prestavam a maior atenção, pois sabiam que vinha chumbo grosso. Onde que eu estava mesmo? Ah sim, na Constância. Deixemos claro que eu tenho é mal de Parkinson, não Alzeihmeir. Minha memória é esplêndida.

           Meu pensamento voa, queria falar da Constância, agora não quero mais. Quero falar do idiota do meu cunhado que, aliás, olha aí o aliás de novo, dei a ele, de mão beijada, a melhor banca de advocacia dessa cidade.

          Levei o cretino nas costas durante anos e hoje ele faz piadinhas com minha doença. Será que esse imbecil não sabe que escuto, vejo e entendo tudo?

          Outro dia o desgraçado contou até uma piada bem engraçadinha: “Mal por mal, prefiro Alzeihmer, que a gente esquece de pagar a cerveja. Duro é Parkinson que a gente treme as mãos e derrama ela toda na mesa”. Engraçadinha pras negas dele. Todo mundo borrou de rir.

          Só eu fiquei com essa minha boca entreaberta, o olhar distante e as mãos mais trêmulas ainda. Fiquei danado da vida. Falei alto - de vez em quando eu falo alto-“ Ô seu velho de merda, pára de tremer essa mão cheia de veia, pára de ficar com esse olhar para o além, fecha essa boca ou abra de uma vez por todas e grita. Grita, porra!”

          Gritei e ninguém ouviu.

          Ninguém ouve, ninguém vê. Fico na varanda da casa, feito um grande jarro sem flor. Incomunicável. Mudo e sem sentimento. Eles não sabem de nada, ninguém liga pra mim. Minha família só tem advogados, economistas e contadores. Contrataram a mais linda enfermeira, a Eliana, e lavaram as mãos. Lavaram, bem lavado, com sabonete de Poços de Caldas. Eles não sabem que não sou nenhum jarro sem flor.

           Sei de tudo, sinto tudo. Eles poderiam muito bem perguntar para os especialistas quais os sintomas e os sentimentos dos portadores de minha doença.

          Qual o quê. Perguntar pra quê? Vai dar muito trabalho. Melhor é contratar uma enfermeira gostosa e bobona que tenha um nariz adunco ou arrebitado, tanto faz, mas que faça de conta que não tem nojo de cheiro de bosta de velho decrépito.

          Peguei pesado? Nada. Pegar pesado é estar completamente apaixonado pela enfermeira, tentar dizer e não conseguir, achar que foi uma bênção ter uma doença esquisita e poder ter ela ao meu lado, ficar louco para, com mãos firmes e sensatas, borrifar um perfume doce de alfazema no meu peito e com as mesmas mãos firmes acariciar seus peitos.

          Só que não posso. Pára de tremer, seu velho! Tá com doença de São Guido?

         Parei de tremer. Toda vez que vejo a minha enfermeirinha chegar - e ela está chegando - paro de tremer as mãos, mas em compensação, o coração dispara. Ela pegou nas minhas mãos e me olhou com carinho. Será que ela também me ama?

         Sou até feliz. Nunca tive uma mulher como a minha enfermeira. Minha mulher - a Constância - que de constância não tinha nada, deveria se chamar inconstância, tirei da zona. Dei muito prazer pra ela, exatamente por não lhe dar prazer. Como era ejaculador precoce e ela, mulher-dama, cronometrista de gozo alheio, achava o máximo ter um velocista ao seu lado. Juntamos a fome com a vontade de comer. Casal perfeito.

         Nem sei por que a tirei da zona. Talvez ela tenha se apaixonado pela minha ligeireza. Ela gostava de mocinho - e eu era mocinho - e rápido no gatilho. Ela me deu três filhos e eu lhe dei um sobrenome. Quites.

           Coitada da Constância, apesar de ter me dado três filhos bem colocados e seis netos, a pecha de puta não a deixava em paz. Ela não prestava. Prestava sim. Tinha uma qualidade que encantava meu pai. Descascava laranja, sem feri-la, fazendo um caracol harmonioso na casca. A danada tinha mãos leves. 

         Quando a tirei da zona e quis apresentá-la à minha família, fiquei meio cabreiro que meus pais desconfiassem do tipo esquisito. Sei lá, Constância tinha um andar balanceado e sensual das rameiras que deixavam os homens enlouquecidos.  Falei com ela da minha preocupação. Ela, despreocupada, disse: “Deixa comigo, seu pai jamais saberá que você me tirou da zona. Vou andar como uma dama. Melhor: vou andar como uma aleijada: vou puxar de uma perna. Como “Deus não escuta puta”, nem liguei para o comentário e deixei pra lá.

           Foi apresentada à família, puxando de uma perna. O tiro saiu pela culatra. Meu pai reclamou: “Vais casar com uma aleijadinha?” Constância nem notou o comentário e gostou de sua nova personalidade. Incorporou o novo cacoete para o resto da vida. Virou aleijada sem nunca ter sido.

           Vamos parar de falar do passado, a minha enfermeirinha pode ficar enciumada. Ela está chegando e tenho certeza que ela lê pensamentos. Vou fazer o meu melhor ângulo. Vira esse pescoço, velho!

          Esse negócio de só pecar por pensamento até que é legal. Os atos incriminam a gente. Essa minha família idiota nem imagina como sou um pecador voraz. A enfermeira se despediu, cordialmente, de todos. Lascou um beijo molhado perto da boca. Sem querer, roçou a minha boca com seu carmim. Carmim ou batom? Não importa, o importante foi o tato e o olfato. Cheiro bom de amora, carambola ou morango. Meu amor tem cheiro de fruta apanhada no pé.

          Lá se foi outro sábado.

          Hoje é domingo. O dia mais infeliz da minha vida. Dia de folga da minha enfermeira. Odeio domingos. Dia de confraternizações, bebedeiras e esquecimentos. Esqueceram de mim num domingo chuvoso, num final de uma varanda mal cuidada. A varanda que cuidei tanto, hoje tem goteiras e goteja nos meus cabelos ralos. Ninguém repara, estão muito ocupados com as trocas de confidências, receitas e olhares. Sei não, mas vislumbro traições nessa minha família. Esse plic, plic, plic me irrita.

          Acho que hoje sou o mais infeliz dos homens. Não consigo ter saudade da Constância, morro de ciúme da minha enfermeira, que a essas horas, só Deus sabe o que está fazendo. Domingo à tarde, deve estar passeando de mãos dadas num parque de diversão qualquer, comendo algodão doce colorido, maçã do amor fincado naquele espeto e gargalhando numa roda gigante. Será que ela pensou em mim?

         Pensando bem, ainda bem que hoje é um domingo chuvoso. Se está me incomodando o gotejar de pingos de chuva, pelo menos a minha enfermeira deve estar em casa, debaixo de cobertores, vendo filmes e pensando em mim.

          A goteira continua a bater na minha calva, escorregando pela testa franzida, passando pelos olhos, encontrando com as lágrimas, descendo por um vinco forte e definido perto do nariz e pousando na minha boca ressequida.

          Lágrima doce de chuva e de vida. Matou minha sede.

          Anseio por uma segunda-feira feia e seca.

          A segunda-feira seca ainda não veio, minha família ainda não se deu conta que continuo encharcado  de  água,  de  amor  e  de  ódio.  Mais  de  ódio  e  amor  do  que  de água.

          Tem coisa mais degradante do que ficar debaixo de uma goteira e não poder se proteger, arredar um pouquinho para o lado ou abrir um guarda-chuva? Optar, querer, fazer?

         Enfim, deram conta de que eu existo. Ficaram consternados. Teve até um filho  - o do meio - que chorou com minha inundação e perdição.

           Me deram um banho quente e estabanado. Filhos, noras, cunhados e irmãos, bêbados de remorso, me esfregaram tanto que quase tiraram meu verniz de poeta. Não conseguiram.

          Acho que fui tão convincente com meu olhar, que eles não me vestiram com outro pijama de bolinhas. Estou trajando uma calça esporte, camisa listrada e sapato de camurça.

          Segunda-feira é o dia mais feliz da minha vida. Segunda-feira, de manhã. Chegou minha enfermeira. Seu sorriso iluminou minha sala mofada.

          Ela pegou em minhas mãos e disse:”  E aí meu anjo, tudo bem?” Achei que suas mãos estavam tristes. A gente conhece enfermeiras pelas mãos.

          Mais uma vez não consegui fazer o meu melhor ângulo, mas não importa. Meus olhos estão límpidos e brilhantes com tanta água da chuva, acho até que foi bom me ensopar.  Comunico-me pelos olhos. Em compensação, os olhos do meu amor estão tristes e cheios de água salgada. O passeio pelo parque não deve ter terminado bem. Fica assim não, meu amor, esquece esse rapaz, ele não te merece.

          Fitei-a intensamente. Interessante esse negócio de se comunicar pelos olhos. Para quem queria ser chofer de táxi na juventude, só pra poder prosear o dia inteiro com as pessoas, acho que estou me saindo muito bem nessa minha nova fase. Sinto que derramo charme pelos poros.

           E não é que tenho razão? Olha ela vindo de mansinho para o meu lado. Segurou as minhas mãos com mãos contentes e quentes, suspirou fundo, olhou para o infinito, olhos fixos no horizonte e recostou no meu ombro.

          Tenho ainda um ombro largo, de nadador de quatrocentos metros borboleta. Sei confortar e proteger uma mulher. E também sou poeta. O poema inacabado vai continuar sem solução. Melhor assim. Havia muitos pingos de chuva na penúltima estrofe. Pingos de chuva me aterrorizam.

          Melhor assim.

          O importante é que minha amada adormeceu nos meus ombros de estivador.

          Até que sou feliz.

 

 

 

Ronaldo Guimarães, nascido em Belo Horizonte (MG), é professor, pedagogo e vice-diretor da E.M. "Arthur Versiani", ex- Fafich. Livros publicados: "Retratos do Tempo", Ed. Dimensão (2001)- contos;"Pretérito quase perfeito", Ed. RHJ- (2004) - romance, e "Parque Municipal",Ed. Conceito (2005) - crônicas.

 

Oficina de Literatura - 2º semestre / 2017...