Autor: Flávio Paiva
Obra: Instantes do não-lugar
 


Instantes do não-lugar

 

 

Milhares e milhares de grãos de areia atingiam as minhas pernas, provocando uma vibração levemente ardorosa na pele. O extraordinário incômodo dava-se por compensado pela imagem de cerração rastejante, desfiada em alta velocidade pelo vento, no sentido contrário ao meu. O véu de partículas voadoras escurecia, em nesgas inteiras, ao tocar na areia molhada da praia, encobrindo minhas pegadas. Mas logo outra camada de grãos esbranquiçava o ar. Sentia-me dentro da alma das dunas andantes. Era uma tarde de sol frio. Caminhava desde o povoado pesqueiro de Curimã. Queria mergulhar no encontro das águas do rio Remédio com o mar.

Tinha a informação de que passaria pela Praia Nova, mas nunca imaginei que aqueles instantes jamais sairiam da minha memória. No meu encanto com a festa de grãos de areia, somente percebi a proximidade do lugar porque me deparei com uma jangada atracada, na qual procurei descansar um pouco. Apoiado no mastro, por cima do nevoeiro arenoso, não acreditava no que via. Eram casas, não tive dúvidas, mas lembravam os pinos metálicos das caixinhas de música, prontos para tocar o silêncio em harmonia com os acordes do vento. Meu pensamento calou. Estava diante de uma imagem que não levava na consciência. Mas não foi o fim do meu olhar. Continuei prolongando exclamações e interrogações entre significados mudos.

Estava diante de um enigma urbano, da paisagem espetáculo. Sem ninguém por perto. Não aparecia vivalma. Não tinha com quem comentar, perguntar, ajudar a olhar. O fascinante urbanismo anônimo, sem arruamento, sem calçadas, sem postes, sem animais domésticos, sem árvores e sem hierarquia arquitetônica. A ausência de semelhança ameaçava em mim o receio do incomunicável, da impermeabilidade simbólica do não-estilo. Respirei calmamente, abri os braços, olhei para o céu, para o mar e voltei a vista novamente para o lugarejo. Paredes, tetos, espaço de circulação, tudo tinha cor de areia, tom sobre tom, e nada que sugerisse a canalização do vento. A Praia Nova começava a dizer coisas que mexiam comigo, pelo que não dizia, pelo que eu não conseguia decifrar. Inspiração visual, poesia concreta.

Fiquei com vontade de descer da embarcação e tentar abordar alguém que supostamente pudesse ocupar o interior de qualquer daquelas casas. Alguém que pudesse explicar alguma coisa. Contudo, minha intuição segurava-me para que seguisse apreciando. Apenas apreciando. Paramos tão pouco para apreciar! A situação era desafiadora. Assumi a paz rebelde do não-lugar, por vê-lo transcender o sentido de comunidade, apresentando-se cósmico, meio cristal, quebradiço e paradoxalmente elástico. Prato cheio para os amantes dos ufos, da quietude, dos mistérios, das estrelas cadentes, das noites de luar, do amor sereno...

A Praia Nova confunde as noções de ponto de olho. Falta nexo o suficiente para abrigar uma interpretação lógica normal. Certamente que a sua hipotética desordem não passa de um arranjo diferente do que se espera de um povoado, por mais espontâneo que seja. E daí? Nem tudo precisa ser predicado. Observando a expressão da sua plasticidade, satisfiz-me em contemplá-la como obra arquitetônica, como escultura, instalação e pintura multidimensional. Enxergando-a à luz da co-realidade, longe do juízo social dos motivos, tive a impressão de transitar na perfeição dos seus traços imperfeitos, despojados, limpos e belos, aportando deslumbramento à imaginação.

Estar diante de um não-lugar fez-me romper com a sensação contraditória da atração repulsiva. O choque entre a emoção do imponderável e a negação da razão perdeu a vez para o acolhimento que nasce da inquietação. Naqueles instantes, de final de tarde, deduzi que a Praia Nova não é alegre nem triste, embora eu saiba que conhecemos o mundo mais pelo que ele não é. O banho na barra do Remédio deixei para outra oportunidade. O tempo estava fechado e o prenúncio de escuridão recomendava voltar para Curimã, onde pegaria o carro para ir dormir em Bitupitá. A areia já não corria tão exultante pela beira-mar. Saltei da jangada, sem me preocupar com desfechos, mas afastei-me lentamente com a impressão de estar sendo observado.

 

 

 

Flávio Paiva, jornalista, compositor e escritor, nasceu em Independência (CE) e, desde 1976,  vive em Fortaleza (CE), onde participa ativamente da produção cultural (literatura, jornalismo e música) e de cidadania (movimentos da sociedade civil e organizações não-governamentais). Com seu livro/cd Flor de Maravilha, inaugura um processo inusitado de diálogo entre a literatura e a música, como recurso de intertextualidade, por meio do qual instiga a criação do leitor. E com Fortaleza - de dunas andantes a cidade banhada de sol (Cortez Editora), incursiona pelo tratamento lúdico da história.

(www.flaviopaiva.com.br)

 

 

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